O risco em 2027, em linguagem simples
Eleição 2026 · 2º turno em 25 de outubro

O risco em 2027

Em 2022 houve uma tentativa de golpe, com um plano para matar o presidente eleito. Em 2026, o candidato do PL diz que vai mudar a Constituição e propõe limitar o STF. Esta página junta o que já foi provado, o que ele diz e propõe, e quantos votos ele teria no Congresso e no Supremo.

Por que juntar essas peças

Nenhuma delas, sozinha, prova que haverá um novo golpe. Juntas, mostram três coisas verificáveis. Houve uma tentativa de golpe em 2022, julgada e condenada. O candidato defende anistiar os condenados, diz que vai mudar a Constituição e propõe reduzir quem pode levar o governo ao STF. E a conta do Congresso e do Supremo mostra quanto falta para isso acontecer: 1 voto no Senado e 52 na Câmara para mudar a Constituição, e 41 senadores, que o bloco já tem, para escolher até 4 ministros do STF.

Os três Poderes, em linguagem simples

A Constituição divide o poder em três partes independentes e harmônicas (art. 2º). Cada uma tem uma função e cada uma pode frear as outras.

Executivo

Quem: o presidente da República e seus ministros.

Faz: governa, aplica as leis, cuida do orçamento e das Forças Armadas.

Freio que exerce: pode vetar leis do Congresso e indica os ministros do STF e o procurador-geral da República.

Legislativo

Quem: Câmara dos Deputados (513) e Senado (81).

Faz: cria leis e pode mudar a Constituição, com 3/5 dos votos nas duas Casas.

Freio que exerce: fiscaliza o governo, abre CPIs, aprova ou rejeita os indicados ao STF e julga o impeachment do presidente e de ministros do STF.

Judiciário

Quem: juízes e tribunais. No topo, o STF, com 11 ministros.

Faz: aplica a lei a casos concretos e guarda a Constituição.

Freio que exerce: pode anular leis e atos do governo e do Congresso que violem a Constituição, e julga autoridades.

Por que controlar os três ao mesmo tempo é grave

Ganhar a eleição e ter maioria no Congresso é legítimo e faz parte da democracia. O problema aparece quando a mesma força política passa a controlar também quem deveria fiscalizá-la. Aí os freios deixam de funcionar:

  • Se o governo aprova uma lei que fere direitos, é o STF que pode anulá-la. Se o próprio governo escolhe a maioria do STF e reduz quem pode levar casos ao tribunal, sobra pouca gente para contestar.
  • Se o Congresso tem maioria para mudar a Constituição e para aprovar todos os indicados ao STF, o Legislativo deixa de ser contrapeso do Executivo e passa a trabalhar junto com ele.
  • Quem perde é quem está em minoria: partidos de oposição, imprensa, entidades e o cidadão que precisa recorrer à Justiça contra o governo.

Por isso a separação dos Poderes é cláusula pétrea: nenhuma emenda pode abolir esse equilíbrio (Constituição, art. 60, §4º, III). Mas mudanças menores, somadas, podem enfraquecê-lo sem aboli-lo formalmente. É isso que as abas do plano, do Congresso e do STF permitem medir.

Fonte: Constituição Federal, arts. 2º, 49 a 52, 60, 84, 101 e 102.

Por que isso importa

Seus direitos dependem de alguém poder dizer não

Liberdade de expressão, direito ao voto e devido processo valem porque existe um tribunal independente para garanti-los quando o governo ou a maioria não os respeitam.

O que se muda em 2027 dura décadas

Ministros do STF ficam até os 75 anos. Uma emenda à Constituição só se desfaz com outra emenda, com 3/5 dos votos. Decisões tomadas agora valem por vários governos.

O histórico recente pesa

Em 2022 houve uma tentativa de golpe, julgada e condenada. O candidato defende anistiar os condenados e propõe limitar o tribunal que os julgou.

Vale para qualquer lado

Os mesmos freios protegem quem hoje está no governo e quem está na oposição. Quem enfraquece o controle hoje entrega a mesma ferramenta ao próximo governo.

Perguntas e respostas

O que Flávio Bolsonaro propõe para o STF?

O plano de governo "Para o Brasil Vencer o Atraso", registrado no TSE, propõe transformar o STF num tribunal constitucional: rever o alcance das ADPFs e quem pode propor ADPF, ADI e ADC, limitar decisões individuais de ministros, acabar com as competências criminais do STF e criar quarentena de um ano para ex-ministros de Estado antes de irem ao tribunal.

Quantos votos faltam para mudar a Constituição a partir de 2027?

Uma emenda à Constituição exige 3/5 dos votos nas duas Casas. Pela conta desta página, com os eleitos em 2026, o bloco do PL teria 48 dos 49 votos necessários no Senado (falta 1) e 256 dos 308 na Câmara (faltam 52).

Quantos ministros do STF o próximo presidente pode indicar?

Até 4: a vaga de Barroso, aberta desde outubro de 2025, e as de Fux (2028), Cármen Lúcia (2029) e Gilmar Mendes (2030), que chegam aos 75 anos. Somados aos 2 indicados por Jair Bolsonaro, seriam 6 dos 11 ministros. A indicação precisa de 41 votos no Senado, e o bloco do PL tem 48.

O que foi o plano Punhal Verde e Amarelo?

Segundo a Polícia Federal, um plano impresso no Palácio do Planalto em 9 de novembro de 2022 que previa matar o presidente eleito Lula, o vice eleito Geraldo Alckmin e o ministro Alexandre de Moraes. O plano não foi executado. Em setembro de 2025, o STF condenou Jair Bolsonaro e outros sete réus pela trama golpista.

O que o plano de governo diz sobre a ADPF?

A ADPF aparece em uma única página do plano, a página 65, no capítulo "Brasil que Cumpre a Constituição", seção "Reforma do Judiciário: o STF como Corte Constitucional". O trecho diz: "Revisão do escopo das ADPFs e dos legitimados ativos para a proposição de ADPFs, ADIs e ADCs."

Flávio Bolsonaro defende anistia aos condenados pela trama golpista?

Sim. Ele afirma que a anistia aos condenados será prioridade se vencer. O STF já sinalizou que uma anistia a esses crimes seria inconstitucional.

Por que controlar os três Poderes ao mesmo tempo é grave?

Porque cada Poder serve de freio aos outros. Ter maioria é legítimo, mas se a mesma força política controla o governo, o Congresso e a maioria do STF, e ainda reduz quem pode recorrer ao tribunal, sobra pouca gente para contestar atos que firam direitos. A separação dos Poderes é cláusula pétrea da Constituição (art. 60, §4º, III).

O que diz o outro lado

Flávio Bolsonaro diz que as mudanças na Constituição servem para "as instituições voltarem a respeitar a Constituição" e que o objetivo é "redemocratizar" o país. Ele e o PL afirmam que o STF extrapola suas funções. O fim da reeleição, que está no plano dele, limita o tempo de um mesmo presidente no cargo.

A defesa do general Mario Fernandes confirma que ele escreveu o documento, mas afirma que ele "não confessou plano de matar ninguém", que o arquivo nunca foi compartilhado com os outros acusados e que ele não participou de nenhuma ação para executá-lo.

Fontes: O Povo, CNN Brasil, 27/07/2025

O que aconteceu em 2022

A Polícia Federal investigou, a Procuradoria-Geral da República denunciou e o Supremo Tribunal Federal julgou. Jair Bolsonaro e outros sete réus foram condenados em setembro de 2025 por crimes que incluem golpe de Estado e tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito.

  1. Segundo a PF, um arquivo de computador com o plano "Punhal Verde e Amarelo" foi impresso no Palácio do Planalto. A PF atribui a autoria ao general da reserva Mario Fernandes, então assessor da Presidência.

    Fonte: CNN Brasil

  2. Segundo a PF, previa matar o presidente eleito Lula, o vice eleito Geraldo Alckmin e o ministro do STF Alexandre de Moraes, que era monitorado. Listava armas como fuzis e lança-granadas e citava envenenamento. Previa também um "Gabinete Institucional de Gestão de Crise" para depois das mortes.

    Fonte: CNN Brasil

  3. A data prevista para os assassinatos, três dias depois da diplomação de Lula no TSE, segundo a PF. O plano não foi executado.

  4. A PF prende cinco suspeitos: quatro militares formados em operações especiais do Exército (os "kids pretos"), entre eles Mario Fernandes, e um policial federal.

  5. No julgamento da trama golpista no STF, o ministro Flávio Dino responde a quem tratava o caso como exagero.

    "O nome do plano não era Bíblia Verde e Amarela, era Punhal Verde e Amarelo."Ministro Flávio Dino, STF

    Fonte: CNN Brasil

O que o candidato diz

Flávio Bolsonaro (PL) é senador pelo Rio de Janeiro, filho de Jair Bolsonaro e candidato à Presidência no 2º turno.

Sobre 1964, a tortura e as urnas

Numa biografia do pai publicada em 2017, Flávio nega que 1964 tenha sido golpe, elogia o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, reconhecido pela Justiça como torturador, e questiona a urna eletrônica.

"Um homem correto, íntegro, que cumpriu seu papel de defender a pátria."Flávio Bolsonaro sobre Ustra, no livro de 2017, segundo a Folha de S.Paulo

Fonte: Brasil 247, a partir de reportagem da Folha de S.Paulo

Anistia aos condenados

Flávio afirma que a anistia aos condenados pela trama golpista será prioridade se vencer. O STF já sinalizou que uma anistia a esses crimes seria inconstitucional.

Fonte: CNN Portugal, 25/09/2026

Mudar a Constituição com a maioria no Congresso

Em Goiânia, em 6 de outubro de 2026, Flávio disse que a maioria de direita no novo Congresso permitirá mudar a Constituição. Não disse quais mudanças. Ligou o plano à eleição dos presidentes da Câmara e do Senado.

"Mudar a Constituição e redemocratizar o País."Flávio Bolsonaro, Goiânia, 06/10/2026

Fonte: O Povo

Ficar no poder

No mesmo período, segundo a Revista Fórum, Flávio disse que, se eleito, encerra a era Lula e que o grupo dele ficará muitos anos no governo.

"Vai ficar por décadas no poder."Flávio Bolsonaro, outubro de 2026, segundo a Revista Fórum

Fonte: Revista Fórum, 07/10/2026

O que diz quem estuda o tema

O cientista político Pablo Holmes, da UnB, afirma que não prevê uma ditadura em caso de vitória de Flávio, mas que o risco existe. Para ele, um golpe depende do apoio de militares, do poder econômico e do cenário internacional, e o conflito com o STF pela anistia pode reabrir a crise de 2022.

"Se a vontade deles não for respeitada, vão tentar o que tentaram novamente."Pablo Holmes, UnB, à CNN Portugal

Fonte: CNN Portugal, 25/09/2026

O que está no plano de governo

O plano "Para o Brasil Vencer o Atraso", registrado no TSE, critica a "hipertrofia" do Judiciário e propõe transformar o STF num tribunal constitucional. As propostas sobre o Supremo:

PropostaO que muda na prática
Revisão do alcance das ADPFs e de quem pode propor ADPF, ADI e ADCEssas são as ações que levam ao STF leis e atos do governo que violam a Constituição. Hoje partidos com representação no Congresso, a OAB, entidades de classe nacionais e a PGR, entre outros, podem propô-las. Reduzir essa lista reduz quem pode contestar o governo no Supremo.
Limitar decisões individuais de ministrosUma liminar de um ministro sozinho deixaria de suspender uma lei ou um ato.
Presunção de constitucionalidade do processo legislativoA decisão de um ministro não poderia se sobrepor ao que o Congresso aprovou.
Fim das competências criminais do STFParlamentares e autoridades seriam julgados pelo STJ e pelos TRFs. O julgamento da trama golpista de 2022 foi feito pelo STF.
Quarentena de um ano para ex-ministros de Estado antes de ir ao STFAtinge indicações como a de Flávio Dino.

Onde a ADPF aparece no plano

A ADPF aparece em uma única página do plano, a página 65. Ela está no capítulo "Brasil que Cumpre a Constituição", na seção "Reforma do Judiciário: o STF como Corte Constitucional".

O trecho diz:

"Revisão do escopo das ADPFs e dos legitimados ativos para a proposição de ADPFs, ADIs e ADCs."Plano de governo "Para o Brasil Vencer o Atraso", p. 65

O plano também propõe o fim da reeleição para presidente, com mandato único.

Fontes: TSE, DivulgaCandContas (proposta de governo registrada), SBT News, 13/08/2026, RTP, 14/08/2026

A conta do Congresso a partir de 2027

Mudar a Constituição exige 3/5 dos votos nas duas Casas, em dois turnos. Afastar um ministro do STF por crime de responsabilidade exige 2/3 do Senado. Aprovar um novo ministro do STF exige maioria absoluta do Senado. Estes são os números com os eleitos em 2026 e os senadores eleitos em 2022, que ficam até 2031.

Senado: 81 cadeiras

Bloco PL 485Bloco PT 27
41
49
54

Linhas tracejadas: 41 maioria absoluta, 49 emenda à Constituição (3/5), 54 afastar ministro do STF (2/3).

Decisão no SenadoVotos exigidosBloco PLResultado
Aprovar ministro do STF indicado pelo presidente4148Sobram 7
Eleger o presidente do Senado4148Sobram 7
Aprovar emenda à Constituição4948Falta 1
Condenar ministro do STF em impeachment5448Faltam 6

Câmara: 513 cadeiras

Bloco PL 25654Bloco PT 203
257
308

Linhas tracejadas: 257 maioria absoluta, 308 emenda à Constituição (3/5).

Decisão na CâmaraVotos exigidosBloco PLResultado
Maioria absoluta (lei complementar, presidente da Câmara)257256Falta 1
Aprovar emenda à Constituição308256Faltam 52

Os 54 deputados de partidos divididos (Republicanos, Solidariedade, PRD, Avante e outros) decidem as votações constitucionais. Se 52 deles votarem com o bloco do PL, a Constituição pode ser alterada.

Bloco PLBloco PTPartidos divididos nos estadosSuplente a confirmar

Como os blocos foram montados: primeiro a coligação nacional de cada candidato a presidente (Lula: PT, PCdoB, PV, PSOL, Rede, PSB e PDT. Flávio: PL). Depois, cada outro partido entra no lado com o qual se aliou em mais estados nas eleições para governador, se a diferença for de 3 estados ou mais. Bloco PL: PL, Podemos, Novo, União Brasil, PP, PSDB, Cidadania, DC e Democrata. Bloco PT: as legendas de Lula, MDB e PSD. Divididos: Republicanos, Solidariedade, PRD, Avante, Mobiliza, Agir e Missão. Bloco não é voto garantido: parlamentares votam caso a caso. Fonte: TSE, resultados de 2022 e 2026. Classificação feita para esta página.

O Supremo a partir de 2027

Três ministros chegam aos 75 anos e se aposentam até 2030, e a vaga de Barroso está aberta desde outubro de 2025. O Senado rejeitou a indicação de Jorge Messias em 29/04/2026. Dois ministros atuais foram indicados por Jair Bolsonaro.

até 6 de 11

Se Flávio vencer e indicar as 4 vagas, os indicados por ele e por Jair Bolsonaro serão 6 dos 11 ministros, a maioria do tribunal. Se a vaga de Barroso for preenchida ainda neste governo, serão 5. Com 48 senadores, o bloco do PL aprova sozinho as indicações.

Nunes Marques
(Bolsonaro)
André Mendonça
(Bolsonaro)
Vaga Barroso
(aberta)
Fux
sai abr/2028
Cármen Lúcia
sai abr/2029
Gilmar Mendes
sai dez/2030
Toffoli
Fachin
Moraes
Zanin
Dino
Indicado por Jair BolsonaroVaga no próximo mandatoVaga aberta hojeFica depois de 2030

Aposentadoria compulsória aos 75 anos (Constituição, art. 40, §1º, II). Saídas antecipadas podem abrir mais vagas. A indicação do presidente precisa de 41 votos no Senado.